segunda-feira, 18 de maio de 2009




Ensaio sobre a síndrome do cavalo branco

"Era uma vez uma menina, aparentemente comum, com um nome comum, hábitos comuns, pensamentos comuns..."
Devemos ressaltar no entanto, que esse não é um conto de fadas comum. Toda a normalidade aqui estabelecida é propriamente adaptada ao século XXI. Essa normalidade deve-se ao fato desta menina ser basicamente igual as outras meninas de seu espaço e tempo.
"Agindo como tal, todos acreditavam que a menina era normal, até mesmo ela própria assim pensava".
Analisando o fato de que tudo o que é diferente é insano e anormal, de acordo com os valores morais impostos pela sociedade.
"Até que ... Ela diagnosticou a sua diferença. Ela sofria de uma doença crônica: 'A Síndrome do Cavalo Branco'”.
(Pequena pausa para leitores admirados e impressionados).
Vocês devem ter pensado: Minha nossa!!! O que é isso? Como deve sofrer a coitadinha!!! E isso tem cura?
Peço-vos calma. Digo então, que se houvesse tido uma prevenção adequada, hoje a pobrezinha não estaria enferma, com o seu emocional desamparado em uma cama de hospital. Embora os médicos já tenham perdido as esperanças, largando-a a própria sorte, ela é forte e insiste em dar seus suspiros 'apaixonados' pela vida. Sim meus caros leitores, há a chance de recuperação. (E o público vibra...)
"Comum ela seria, nada de anormal havia sido percebido. Até que quando o mundo se encontrava em meados de amor líquido e sexo sem compromisso, ela estava só, somente ela e seus pensamentos, seus sonhos, suas ilusões. Aquele mundo que girava lá fora não era o mesmo do dela.
Estava confusa, perturbada, suas emoções afloradas. Uma folha a cair, causava-lhe prantos e ninguém era capaz de imaginar o quanto de amor ela possuía em seu peito para dar, estava disposta a dar, sem interesse algum, precisava apenas doar-se..."
Foi então que sua doença foi detectada. Não se preocupem que ela não é contagiosa, rara, porém só atinge corações fracos e pouco preparados.
"Ela tinha sonhos, planos. Imaginava seu casamento, planejava como a sua casa deveria ser. A líbido sexual era demasiadamente sublimada em suas poesias e músicas. E de suas melhores e mais profundas lembranças, estava aquele beijo, o seu 1° beijo, o único fio que a ligava ao mundo real..." Ou será que o causador de sua doença? Talvez o que a fazia acreditar que era 'Branca de Neve' e que a qualquer momento o sue príncipe encantado chegaria e a traria de volta a realidade. Enquanto isso a Síndrome está em um estágio onde ela se afoga em sua própria fantasia, onde ela está absolutamente imersa em ilusão. Talvez ela seja a única moça pós-moderna que sofra dessa Síndrome. Talvez ela seja a única menina deste tempo que espera o seu príncipe encantado vir a ela, montado em um cavalo branco. É claro que devemos levar em consideração que nos tempos atuais, o cavalo branco torna-se um pouco improvável e até ridículo, poderia então ser um automóvel conversível vermelho, um carro qualquer, uma moto, ou até mesmo uma bicicleta, mas ela o esperava, não importa como ele seja ou quem ele seja, (não precisa nem ser filho de um rei ou pertencer a alguma família real), mas ela o deseja, o deseja profundamente, não importa quando ele venha, mas ela o espera.
O estágio mais grave e trágico desta Síndrome do cavalo branco é que como a Branca de Neve, ela está lá em seu caixão de cristal, faces pálidas e lábios rosados, está adormecida, inconsciente, apenas a esperar que seu príncipe venha até ela , tire sua capa e lhe dê o beijo que todos esperam ansiosos. Mas o que os livros infantis nunca explicam é da onde esse príncipe encantado vêm, ele simplesmente surge do nada como se caísse do céu, a desperta e todos vivem felizes para sempre. Fantástico!
Nossa enferma tem sã consciência de que sua cura está em um desse inúmeros príncipes encantados que calvogam por aí em seus corcéis brancos (ou corcel negro? Sei lá), mas o maior problema é como saber quem é ele? Qual deles é o seu curandeiro? Qual deles é o certo? Quem sabe fazer uma enorme fila com todos eles e permitir que todos mostrem seus dotes, dando-lhe seus melhores e mais ensaiados beijos, até que por fim alguém a faça despertar.
Esta aí o sentido das ações dos indivíduos sobreviventes do século XXI! Na verdade todos acreditam em príncipes e princesas, estão apenas tentando encontrá-los, experimentando, experimentam um a um, até que por fim o encontre, ou talvez nem chegue a saber quem é, e casa-se com um suposto príncipe e fica frustrada pelo resto da vida sem ter nunca encontrado a pessoa certa. São eventualidades deste mundo o qual não chega próximo de um conto de fadas. Banalidades.
"Não há amor possível sem a oportunidades dos sujeitos". - esta é a frase do falecido Cubas em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' (Machado de Assis). Uma verdade. Ninguém pode amar se não estiver disposto a amar, com a pessoa certa e em um momento oportuno.
Foi por essa e outras razões que nossa protagonista infectou-se com o vírus da síndrome do cavalo branco. Apesar de também viver manipulada pelo consumismo das mídias modernas, ela prefere acreditar que está fazendo o certo. Mas todos nós sabemos que o que não é igual é anormal, o critério mais comum de normalidade é o quantitativo e ela está doente, em um estado crítico da doença, já atingiu a vontade, os ideais, a razão e muito dificilmente serão desinfectados (se assim posso dizer) sem nenhuma seqüela. Só há uma cura e está não há período exato para ser conseguida, e ninguém pode ajudá-la, nem ciência, nem espiritualidade. Ela continuará a carregar consigo uma dor taciturna e sutil. Seus amigos podem aliviar um pouco a sua dor, lhe dando apoio e carinho.
Mas e se ela continuasse lutando? Continuasse tentando sair do estado de coma em que seu coração esta? Sim, ela pode lutar, mas ninguém sabe como. Ela não irá sair na rua e escolher alguém para gostar. Ela não tem pressa. A agilidade transformam os contos de fadas em filmes de acão e aventura. Nos contos, cada coisa tem seu momento exato de acontecer. Quando todos os anõezinhos choravam em torno do caixão repleto de flores, surge o príncipe para transformar as lágrimas de tristeza em lágrimas de alegria.
Não tenha pressa pequeno e frágil coração. Suspire o quanto puder e guarde energia para um dia saltitar realmente com o verdadeiro amor. Não passou tanto tempo assim e você não precisa correr para alcançar o mundo. Obedeça o seu tempo, viva o seu mundo, mesmo que ele pareça tão distante da realidade. É isso que a faz especial. A nossa menina deve acreditar que esta fazendo a coisa certa, todos viverão felizes para sempre no final.
E como em alguma história do Peter Pan: você que acredita em magia, bata palmas e Sininho voltará a viver. Então você leitor, que acredita no amor, torça por nossa menina encontrar a cura. Não importa quanto tempo levará, o que importa é que ela não desista de seus sonhos. O importante é ela seguir seus ideais. Ainda deve existir românticos. Afinal, sua vida pode ser poesia se você quiser, tudo depende dos óculos com que você enxerga o mundo.
PS: A menina da história não se considera doente de verdade, tudo não passa de exagero do narrador, uma certa ironia, ela acredita em finais felizes.
20/01/2000


Érika Zicardi
Publicado no Recanto das Letras em 14/04/2008
Código do texto: T945298

2 comentários:

  1. Oi, fiquei curiosa... pq postou este texto nos eu blog, o que achou dele?
    Érika Zicardi

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  2. Oi Érica!Terei um enorme prazer em falar contigo sobre isso, me adicione no msn para conversarmos...mara.lac@hotmail.com

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